E a Ucrânia?

Tem-me sido muito difícil pensar nas implicações da guerra no design gráfico. Não tenho lido textos ou intervenções sobre o assunto. Antes de escrever este texto, fui espreitar o Aiga Eye on Design e o Design Observer e não dei com nada. O mesmo na Futuress. Não sei se me escapou alguma coisa.

Em notícias generalistas, dei com uma referência a designers russos que tinham perdido o acesso ao software da adobe por causa do boicote. Na semana passada, alguém postou a foto das alterações feita pelos conquistadores russos às letras tridimensionais que identifica a cidade de Mariupol. O azul e amarelo ucranianos foram substituídos pelo azul, branco e vermelho da federação russa. A grafia passou a representar a pronúncia russófona.

Tanto quanto reparei, ninguém na comunidade de designers comentou qualquer um destes acontecimentos.

Este lettering tridimensional tornou-se num lugar comum da identidade gráfica urbana no século XXI. São fáceis de planear e fazer. Pelo seu aspecto gráfico cartoonesco, um pouco digital, funcionam como um tag gigantesca, encastrado na paisagem, pronto a usar por qualquer instagramer ou tiktoker.

Já se comentou muitas vezes como esta forma de branding, desproblematiza as cidades, procurando torná-las em puras unidades de consumo e de capital, escondendo debaixo de uma unidade gráfica um sem número de rupturas, marginalizações, exclusões, etc. O Porto é um grande exemplo dessas dinâmicas.

O rebranding de Mariupol mostra como estes processos e formatos continuam a ser usados numa situação de guerra de conquista. O apagamento torna-se aqui uma representação do apagamento genocida da população ucraniana em nome do irredentismo chauvinista russo.

Porque há tão pouca gente dentro do design a falar disto?

Nas últimas duas décadas, o design gráfico tem conduzido todo o tipo de esforços para se tornar crítico, político ou social. Alcançaram-se alguns objectivos nesse sentido, em particular nas questões da inclusão de minorias e da expansão da história e da prática do design para além das geografias e identidades que tradicionalmente a dominavam.

Porém, muito do esforço político e social da área traduziu-se apenas em aplicar um verniz empresarial a causas sociais, produzindo logotipos que possam atrair investidores privados. Essas causas vão desde acções de caridade até ao branding de cidades.

Em termos políticos, uma das perguntas recorrentes tem sido como conjugar uma prática crítica do design com o trabalho regular de estúdio ou de freelancer. Como se consegue pagar as contas sem sacrificar a intervenção social e política?

Quase toda a discussão política no design é, em suma, sobre potenciais clientes e sobre ética profissional. Talvez por isso seja tão difícil falar sobre design em situações de guerra, de genocídio, de ocupação militar.

Penso que seria necessária uma reflexão sobre design que ultrapassasse os interesses profissionais dos designers, que fosse além da política como conteúdo, e do design como serviço privado.

Há exemplos desse tipo de prática em outras áreas, por parte de iniciativas como os Forensic Architecture ou os Bellingcat. Na minha opinião, estas são o tipo de práticas críticas com a qual os designers gráficos sonham mas que não conseguem alcançar por estarem presos a um visão professionalizante da disciplina. Nestas práticas, o que se faz encenar novos modos de visão críticas sobre imagens, sobre as redes sociais, sobre algoritmos.

As formas profissionais são reinventadas para acomodar estas novas visões e não o oposto. Deixa-se de produzir imagens e formatos empresariais para encenar um design investigativo, tanto de ferramentas, como de métodos, como enquadramentos com que lidar com problemas políticos novos e extremos.

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