Cartas de design


Ainda não recebi a minha carta. Já sabia que ia ser das últimas porque me atrasei a escrevê-la como sucedeu com quase tudo desde que a minha filha nasceu faz dez meses. O sono está atrasado, a saúde, o trabalho, os filmes, os livros, as idas à rua. Por isso, agarrei-me ao convite de escrever uma carta sobre design, feito pela Joana Baptista Costa. Agarrei-a e só a larguei muito depois, como um náufrago. Por isso ficou para o fim. Pude ler assim algumas das que foram escritas antes e fiquei um pouco melancólico comigo mesmo. São quase todas cartas esperançosas, dirigidas ao futuro, ao passado, a pessoas que se respeita, dando conselhos, fazendo das cartas veículos íntimos, de trazer as pessoas para perto.

Fiquei melancólico porque fiz o oposto. Originalmente, quis escrever uma carta à forma, a parte menos respeitada do binómio forma/função mas não ter tempo deixa-nos perante nós mesmos, e acabei por escrever não uma carta de esperança mas uma carta adversarial, destinada a um antagonista imaginado numa discussão. É uma missiva não para estabelecer uma ligação mas para a terminar, no sentido de encerrrar uma relação ou uma discussão que azedou.

Neste caso, é sobre concepções distintas do que é a crítica e a história do design. Interessam-me cada vez os formatos e os métodos com os quais se tem feito a história do design português, demasiado centrado em figuras heróicas e em design de estúdio. Não direi muito mais aqui porque já o escrevi na carta.

O que me importa dizer é que estas cartas também me obrigaram a um auto-exame. Confirmei que uma parte importante da minha vida foi definida pelos blogues e mais tarde pelas redes sociais. É uma parte adversarial, assertiva, e isso reflecte-se no tipo de carta que escrevi. Quando não temos tempo, ficamos perante nós mesmos, perante aquilo que fazemos por norma.

Não significa que me arrependa ou rejeite essa parte, claro. Há uma parte que não depende da minha decisão mas do tipo de plataforma que estava à minha disposição. Fico a pensar no que escreveria (ou se escreveria) se por exemplo não tivesse deparado com os blogues naquele ano tão distante de 2004. Ou se o facebook não me tivesse cativado precisamente por ser uma versão mais combativa e imediata dos blogues.

É uma facilidade dizer hoje que as redes sociais são tóxicas, amplificando todo o tipo de abusos, mas também é verdade que o discurso público do design, por exemplo, era uma mera formalidade antes de aparecerem. Talvez não houvesse tantos designers a escrever e a intervir em público se não fosse pelas redes sociais.

Não sei. O que sei é que segui o que me pareceu mais interessante.

Hoje, apetece-me outro tipo de escrita sobre design mais lenta, menos adversarial, mais inclusiva. Tenho-a ensaiado de novo nos blogues e na escrita mais académica. Reservo a minha persona adversarial a assuntos mais gerais (anti-racismo, activismo lgbtq, Síria, Ucrânia).

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