Os meus livros do ano (não necessariamente editados neste ano):

East West Street – escrito por Philippe Sands, advogado de direitos humanos, sobre a origem dos termos genocídio e crimes contra a humanidade. Não é um relato seco mas entranhado na história das piores atrocidades do século XX contadas através da própria família do autor, vinda de Lviv, a mesma região de onde vieram os dois advogados que inventaram estes dois termos.

Investigative Aesthetics – Não há muitos livros sobre design ou áreas afins nesta lista. Os melhores que li têm o dedo de Eyal Weizman dos Forensic Architecture. O design tem tem tentado operar uma viragem política nos últimos anos, porém sempre a tatear e, no caso do design gráfico, sempre mais preocupada com questões de deontologia profissional do que com radicalmente refazer a disciplina. Mesmo os melhores esforços, como os de Ruben Pater, parecem-me sempre dispersos demais por um sem-número de anedotas que acabam por deixar intacto o «núcleo duro» da disciplina. Diria que o problema é tratar-se da política como essencialmente um conteúdo e não como algo que interrogue radicalmente o que é ser um designer. No último livro de Pater, Caps Lock, os títulos dos capítulos assumem o esquema familiar do «designer como…», sublinhando sempre a entender deste modo a centralidade do designer como uma constante dentro da disciplina. Parte do que gosto no trabalho de Weizman e dos Forensic Architecture é que refazem de modo radical todos os pressupostos do que é o design como disciplina projectar. Investigative Aesthetics demonstra na prática uma estética política que salva vidas, investiga crimes contra a humanidade, genocídios, crimes ambientais, etc. O que pedir mais?

Este ano decidi distanciar-me da fusão crescente do design gráfico com a tipografia concentrando-me na área neglicenciada da imagem, para isso foram essenciais The Civil Contract of Photography, de Ariella Azoulay e Seeing Through Race, de WJT Mitchell. Tende-se a negligenciar a imagem e a sua política quando ela assume cada vez mais importância como uma forma de discurso público. Em outras épocas a produção de imagens era uma área especializada. Agora, é algo generalizado, que qualquer um pode fazer.

Exhalation – Colecção de contos de Ted Chiang. Inclui o conto que deu origem ao filme Arrival, de Dennis Villeneuve. Tem um conto sobre uma cuidadora que dedica a sua vida a proteger e mais tarde a criar o protótipo de um software inteligente como se fosse seu filho. Ainda se assume sempre que as máquinas são mais duradouras que um ser humano, mas vivemos há muito numa época onde isto se inverteu. Duramos muito mais do que elas, do que os nossos computadores, do que o programa de escrita ou de desenho no qual aprendemos a desenhar, que o nosso primeiro jogo, que um site onde lemos um texto que nos comoveu. A rapidez com que software e hardware são descartados assume aqui um carácter de vida ou morte.

The Hard Crowd, de Rachel Kushner. Ensaios, alguns biográficos outros servindo de apoio a The Flamethrowers, o seu melhor livro. Mete tudo, desde motos e carros até a Autonomia italiana. Há quem a compare com Joan Didion, mas gosto mais de Kushner, talvez porque os temas me interessam mais.

Ice, de Anna Kavan – Como só decidi ler isto este ano é que não percebo. Um sonho drogado co arrepios numa intensidade sempre crescente sempre meio passo à frente de uma morte gelada.

Everyday Stalinism, da historiadora Sheila Fitzpatrick que resume a dado passo a vida quotidiana na União Soviética como uma mistura de orfanato, prisão e sopa dos pobres, e define o estalinismo como o cume mais extremo mas também o paradigma da vida soviética. Para além dos gulags, é, a todos os níveis, uma vida desigual, extrema e desesperada. É como viver sobre a carapaça de um imenso e imprevisível monstro.

Go Went Gone, de Jenny Erpenbeck – um grande livro sobre uma nova europa, contado sob o ponto de vista de um antigo alemão de Leste, um refugiado que perdeu a sua terra sem a ter abandonado fisicamente, que se redescobre cuidando de refugiados.

We Have Never Been Modern, de Bruno Latour – este foi ano em que deixei de ser pós-moderno. Latour deu uma grande ajuda.

The Nature of Conspiracy Theories, de Michael Butter, um bom estudo sobre um tema quente. Este é daqueles que apetece reler. Não se pode dizer que «gostei» mas iluminou de modo contra intuitivo um assunto sobre o qual se pensa saber o essencial. Outros do mesmo género são Confronting Anti-semitism on the Left, de Daniel Randall, uma perspectiva marxista clássica sobre a história do anti-semitismo à esquerda, e Denying the Obvious: Chemical Weapons and the Information War Over Syria. De Brian Whitaker, uma introdução e breve história das campanhas de desinformação da guerra Síria.

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